BRASÍLIA OU BRAXÍLIA?
QUAL UTOPIA INSPIRA MAIS?

Nicolas Behr

Braxília não, Braxília é sonho. A cidade que cada um de nós pode inventar e construir, sem tijolos e sem dor.
A utopia dentro da utopia, como se isso fosse possível.
A outra Brasília, a sua, a nossa, a velha, a real, já foi sonho sim. Já foi. Hoje esta cidade são linhas retas que substituímos por linhas sinuosas, barrocas. A imposição da régua substituída pela disposição do traço livre e solto.
A cada dia que passa me convenço mais e mais de que Brasília foi construída com a finalidade errada: não deveria nunca abrigar o poder. O poder não a merece, o poder não a valoriza. O poder a corrompe, a engana, a maltrata.
Sai a idéia da cidade mais moderna e arrojada do mundo e entra, para nossa vergonha e tristeza, entra a cidade-do-topa-tudo-por-um-acordo. A cidade onde só vivem pessoas más, egoístas, que só pensam em prejudicar aos outros e beneficiar a si mesmas. Infelizmente, e bota infelizmente nisso, a idéia que se tem, lá fora, de Brasília é essa: a cidade dos políticos sacanas, que só pensam em criar taxas, sobretaxas, tarifas e impostos. Tudo que acontece de ruim... culpa de Brasília. E, por tabela, culpa dos pobres brasilienses, gente trabalhadora, honesta, como eu e você! Com certeza!
Onde está a Brasília fruto do gênio brasileiro? Orgulho de um povo? Onde está a Brasília – patrimônio cultural da humanidade? Onde? Me mostrem! A que aparece é sempre a Brasília-podre-de-podres-poderes! Pobre Brasília, pobre de nós!
Por isso é preciso recorrer ao sonho, ao sonho de criar Braxília. Uma cidade solidária, humana, inquieta, rebelde, insubmissa, fruto do nosso incipiente sentimento nativista!
E essa cidade – Braxília - já existe sim. Existe, garanto. Entre um escândalo e outro, é em Braxília que nos refugiamos, é lá que respiramos, que nos despressurizamos. É onde a vida real acontece. É onde não há lugar para a mentira, a tramóia. Braxília é a cidade dos homens bons. É a cidade das pessoas de poder, e não das pessoas do poder, como diz Bené Fonteles.
Brasília inspirou Braxília, Brasília criou Braxília.
Criar uma Brasília não-capital, uma Brasília não-poder, sempre foi o objetivo ( alcançado? ) de toda uma geração que, principalmente a partir dos anos 70, cantou e encantou Brasília. Asas e eixos, Liga Tripa, Concerto Cabeças... como tudo isso foi importante para a formação do inconsciente coletivo ( e do consciente coletivo também! ) da nossa cidade.
Nós que a amamos, que a admiramos, que cantamos em prosa e verso essa beleza maculada que é a nossa cidade! Ah, Brasília, tudo que sou devo a ti! Como posso retribuir? Te devo tantos poemas...
Brasília inspira sim, é musa sim. Alquebrada, machucada,
Brasília nunca precisou tanto de nós....
Viva Brasília, Viva Braxília!